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    Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo

    1. Jesus, tendo vindo às cercanias de Cezaréia de Filipe, interrogou assim seus discípulos: “Que dizem os homens, com relação ao Filho do Homem? Quem dizem que eu sou?” – Eles lhe responderam: “Dizem uns que és João Batista; outros, que Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas.” – Perguntou-lhes Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?” – Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” – Replicou-lhe Jesus: “Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que isso te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.” (S. Mateus, cap. XVI, vv. 13 a 17; S. Marcos, cap. VIII, vv. 27 a 30.)

    2. Nesse ínterim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia Jesus e seu espírito se achava em suspenso – porque uns diziam que João Batista ressuscitara dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que uns dos antigos profetas ressuscitara. – Disse então Herodes: “Mandei cortar a cabeça a João Batista; quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas?” E ardia por vê-lo. (S. Marcos, cap. VI, vv. 14 a 16; S. Lucas, cap. IX, vv. 7 a 9.)

    3. (Após a transfiguração.) Seus discípulos então o interrogam desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” – Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: – mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem.” – Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara. (S. Mateus, cap. XVII, vv. 10 a 13; – S. Marcos, cap. IX, vv. 11 a 13.)

    Ressurreição e reencarnação

    4. A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não acreditavam nisso. As idéias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não eram claramente definidas, porque apenas tinham vagas e incompletas noções acerca da alma e da sua ligação com o corpo. Criam eles que um homem que vivera podia reviver, sem saberem precisamente de que maneira o fato poderia dar-se. Designavam pelo termo ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação. Com efeito, a ressurreição dá idéia de voltar à vida o corpo que já está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já se acham desde muito tempo dispersos e absorvidos. A reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra ressurreição podia assim aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, segundo a crença deles, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João fora visto criança e seus pais eram conhecidos. João, pois, podia ser Eliasreencarnado, porém, não ressuscitado.

    5. Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodememos, senador dos judeus – que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: “Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele.”

    Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.”

    Disse-lhe Nicodemos: “Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?”

    Retorquiu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. – O que é nascido da carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. – Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. – O Espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo homem que é nascido do Espírito.”

    Respondeu-lhe Nicodemos: “Como pode isso fazer-se?” – Jesus lhe observou: “Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade, em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. – Mas, se não me credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos fale das coisas do céu?” (S. JOÃO, cap. III, vv. 1 a 12.)

    6. A idéia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam reviver na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1, nº 2, nº 3). Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera deixado de a combater, como combateu tantas outras. Longe disso, ele a sanciona com toda a sua autoridade e a põe por princípio e como condição necessária, quando diz: “Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.” E insiste, acrescentando: Não te admires de que eu te haja dito ser preciso nasças de novo.

    7. Estas palavras: Se um homem não renasce do água e do Espírito foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. O texto primitivo, porém, rezava simplesmente: não renasce da água e do Espírito, ao passo que nalgumas traduções as palavras – do Espírito – foram substituídas pelas seguintes: do Santo Espírito, o que já não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários a que os Evangelhos deram lugar, como se comprovará um dia, sem equívoco possível. (1)

    (1) A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo. Diz: “Não renasce da água e do Espírito”; a de Sacy diz: do Santo Espírito; a de Lamennais: do Espírito Santo.

    À nota de Allan Kardec, podemos hoje acrescentar que as modernas traduções já restituíram o texto primitivo, pois que só imprimem “Espírito” e não Espírito Santo. Examinamos a tradução brasileira, a inglesa, a em esperanto, a de Ferreira de Almeida, e todas elas está somente “Espírito”.

    Além dessas modernas, encontramos a confirmação numa latina de Theodoro de Beza, de 1642, que diz:

    “…genitus ex aqua et Spiritu…” “…et quod genitum est ex Spiritu, spiritus est.”

    É fora de dúvida que a palavra “Santo” foi interpolada, como diz Kardec. – A Editora da FEB, 1947.

    8. Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas palavras, cumpre também se atente na significação do termoágua que ali não fora empregado na acepção que lhe é própria.

    Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos antigos sobre as ciências físicas. Eles acreditavam que a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a água como elemento gerador absoluto. Assim é que na Gênese se lê: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas; flutuava sobre as águas; – Que o firmamento seja feito no meio das águas; – Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em um só lugar e que apareça o elemento árido; -Que as águas produzam animais vivos que nadem na água e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento.”

    Segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como o Espírito era o da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem não renasce da água e do Espírito, ou em água e em Espírito”, significam pois: “Se o homem não renasce com seu corpo e sua alma.” E nesse sentido que a principio as compreenderam.

    Tal interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Jesus estabelece aí uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne indica claramente que só o corpo procede do corpo e que o Espírito independe deste.

    9. O Espírito sopra onde quer; ouves-lhe a voz, mas não sabes nem donde ele vem, nem para onde vai:pode-se entender que se trata do Espírito de Deus, que dá vida a quem ele quer, ou da alma do homem.Nesta última acepção – “não sabes donde ele vem, nem para onde vai – significa que ninguém sabe o que foi, nem o que será o Espírito. Se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo tempo que o corpo, saber-se-ia donde ele veio, pois que se lhe conheceria o começo. Como quer que seja, essa passagem consagra o princípio da preexistência da alma e, por conseguinte, o da pluralidade das existências.

    10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; – pois que assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. – Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o EIias que há de vir. – Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir. (S. MATEUS, cap. XI, vv. 12 a 15.)

    11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. -“Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência.” Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: “Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que há de vir.” Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. “Até ao presente o reino dos céus é tomado pela violência”: outra alusão à violência da lei moisaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura.

    E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades.

    12. Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo; aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó; porque o orvalho que cai sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes. (ISAÍAS, cap. XXVI, v. 19.)

    13. E também muito explícita esta passagem de lsaías: “Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dadaviverão de novo.” Se o profeta houvera querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito: ainda vivem, e não: viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam um contra-senso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem, em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.

    14. Mas, quando o homem há morrido uma vez, quando seu corpo, separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? -Tendo morrido uma vez, poderia o homem reviver de novo? Nesta guerra em que me acho todos os dias da minha vida, espero que chegue a minha mutação. (JOB, cap. XIV, v. 10,14. Tradução de Le Maistre de Sacy.)

    Quando o homem morre, perde toda a sua força. expira. Depois, onde está ele? -Se o homem morre, viverá de novo? Esperarei todos os dias de meu combate, até que venha alguma mutação? (ID. Tradução protestante de Osterwald.)

    Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo. (ID. Versão da Igreja grega.)

    15. Nessas três versões, o princípio da pluralidade das existências se acha claramente expresso. Ninguém poderá supor que Job haja querido falar da regeneração pela água do batismo, que ele de certo não conhecia. “Tendo o homem morrido uma vez, poderia reviver de novo?” A idéia de morrer uma vez, e de reviver implica a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja grega ainda é mais explícita, se é que isso é possível: “Acabando os dias da minha existência terrena, esperarei, porquanto a ela voltarei”, ou, voltarei à existência terrestre. Isso é tão claro, como se alguém dissesse: “Saio de minha casa, mas a ela tornarei.”.

    “Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, espero que se dê a minha mutação.” Job, evidentemente, pretendeu referir-se à luta que sustentava contra as misérias da vida. Espera a sua mutação, isto é, resigna-se. Na versão grega, esperarei parece aplicar-se, preferentemente, a uma nova existência: “Quando a minha existência estiver acabada, esperarei, porquanto a ela voltarei.” Job como que se coloca, após a morte, no intervalo que separa uma existência de outra e diz que lá aguardará o momento de voltar.

    16. Não há, pois, duvidar de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, suas palavras, quando forem meditadas sem idéias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.

    17. A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de vista filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando se trata de remontar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como de necessidade absoluta, como condição inerente à Humanidade; numa palavra: como lei da Natureza. Pelos seus resultados, ela se evidencia, de modo, por assim dizer, material, da mesma forma que o motor oculto se revela pelo movimento. Só ela pode dizer ao homem donde ele vem, para onde vai, por que está na Terra, e justificar todas as anomalias e todas as aparentes injustiças que a vida apresenta. (1)

    (1) Veja-se, para os desenvolvimentos do dogma da reencarnação, O Livro dos Espíritos, caps. IV e V; O que é o Espiritismo, cap. II, por Allan Kardec; Pluralidade das Existências, por PEZZANI.

    Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que hão dado lugar a tão contraditórias interpretações. Está nesse princípio a chave que lhes restituirá o sentido verdadeiro.

    A reencarnação fortalece os laços de família, ao passo que a unicidade da existência os rompe

    18. Os laços de família não sofrem destruição alguma com a reencarnação, como o pensam certas pessoas. Ao contrário, tornam-se mais fortalecidos e apertados. O princípio oposto, sim, os destrói.

    No espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos, esses Espíritos se buscam uns aos outros. A encarnação apenas momentaneamente os separa, porquanto, ao regressarem à erraticidade, novamente se reúnem como amigos que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até, uns seguem a outros na encarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. Cada vez menos presos à matéria, mais viva se lhes torna a afeição recíproca, pela razão mesma de que, mais depurada, não tem a perturbá-la o egoísmo, nem as sombras das paixões. Podem, portanto, percorrer, assim, ilimitado número de existências corpóreas, sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga.

    Está bem visto que aqui se trata de afeição real, de alma a alma, única que sobrevive à destruição do corpo, porquanto os seres que neste mundo se unem apenas pelos sentidos nenhum motivo têm para se procurarem no mundo dos Espíritos. Duráveis somente o são as afeições espirituais; as de natureza carnal se extinguem com a causa que lhes deu origem. Ora, semelhante causa não subsiste no mundo dos Espíritos, enquanto a alma existe sempre. No que concerne às pessoas que se unem exclusivamente por motivo de interesse, essas nada realmente são umas para as outras: a morte as separa na Terra e no céu.

    19. A união e a afeição que existem entre pessoas parentes são um índice da simpatia anterior que as aproximou, Daí vem que, falando-se de alguém cujo caráter, gostos e pendores nenhuma semelhança apresentam com os dos seus parentes mais próximos, se costuma dizer que ela não é da família. Dizendo-se isso, enuncia-se uma verdade mais profunda do que se supõe. Deus permite que, nas famílias, ocorram essas encarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de servir de prova para uns e, para outros, de meio de progresso. Assim, os maus se melhoram pouco a pouco, ao contacto dos bons e por efeito dos cuidados que se lhes dispensam. O caráter deles se abranda, seus costumes se apuram, as antipatizas se esvaem. E desse modo que se opera a fusão das diferentes categorias de Espíritos, como se dá na Terra com as raças e os povos.

    20. O temor de que a parentela aumente indefinidamente, em conseqüência da reencarnação, é de fundo egoístico: prova, naquele que o sente, falta de amor bastante amplo para abranger grande número de pessoas. Um pai, que tem muitos filhos, ama-os menos do que amaria a um deles, se fosse único? Mas, tranqüilizem-se os egoístas: não há fundamento para semelhante temor. Do fato de um homem ter tido dez encarnações, não se segue que vá encontrar, no mundo dos Espíritos, dez pais, dez mães, dez mulheres e um número proporcional de filhos e de parentes novos. Lá encontrará sempre os que foram objeto da sua afeição, os quais se lhe terão ligado na Terra, a títulos diversos, e, talvez, sob o mesmo título.

    21. Vejamos agora as conseqüências da doutrina antireencarcionista. Ela, necessariamente, anula a preexistência da alma. Sendo estas criadas ao mesmo tempo que os corpos, nenhum laço anterior há entre elas, que, nesse caso, serão completamente estranhas umas às outras. O pai é estranho a seu filho. A filiação das famílias fica assim reduzida à só filiação corporal, sem qualquer laço espiritual. Não há então motivo algum para quem quer que seja glorificar-se de haver tido por antepassados tais ou tais personagens ilustres. Com a reencarnação, ascendentes e descendentes podem já se terem conhecido, vivido juntos, amado, e podem reunir-se mais tarde, a fim de apertarem entre si os laços de simpatia.

    22. Isso quanto ao passado. Quanto ao futuro, segundo um dos dogmas fundamentais que decorrem da não-reencarnação, a sorte das almas se acha irrevogavelmente determinada, após uma só existência. A fixação definitiva da sorte implica a cessação de todo progresso, pois desde que haja qualquer progresso já não há sorte definitiva. Conforme tenham vivido bem ou mal, elas vão imediatamente para a mansão dos bem-aventurados, ou para o inferno eterno. Ficam assim, imediatamente e para sempre, separadas e sem esperança de tornarem a juntar-se, de forma que pais, mães e filhos, mandos e mulheres, irmãos, irmãs e amigos jamais podem estar certos de se verem novamente; é a ruptura absoluta dos laços de família.

    Com a reencarnação e progresso a que dá lugar, todos os que se amaram tornam a encontrar-se na Terra e no espaço e juntos gravitam para Deus. Se alguns fraquejam no caminho, esses retardam o seu adiantamento e a sua felicidade, mas não há para eles perda de toda esperança. Ajudados, encorajados e amparados pelos que os amam, um dia sairão do lodaçal em que se enterraram. Com a reencarnação, finalmente, há perpétua solidariedade entre os encarnados e os desencarnados, e, daí, estreitamento dos laços de afeição.

    23. Em resumo, quatro alternativas se apresentam ao homem, para o seu futuro de além-túmulo: 1ª, o nada, de acordo com a doutrina materialista; 2ª, a absorção no todo universal, de acordo com a doutrina panteísta; 3ª, a individualidade, com fixação definitiva da sorte, segundo a doutrina da Igreja; 4ª, a individualidade, com progressão indefinita, conforme a Doutrina Espírita. Segundo as duas primeiras, os laços de família se rompem por ocasião da morte e nenhuma esperança resta às almas de se encontrarem futuramente. Com a terceira, há para elas a possibilidade de se tornarem a ver, desde que sigam para a mesma região, que tanto pode ser o inferno como o paraíso. Com a pluralidade das existências, inseparável da progressão gradativa, há a certeza na continuidade das relações entre os que se amaram, e é isso o que constitui a verdadeira família.

    Loki
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    INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS

    Limites da encarnação

    24. Quais os limites da encarnação?

    A bem dizer, a encarnação carece de limites precisamente traçados, se tivermos em vista apenas o envoltório que constitui o corpo do Espírito, dado que a materialidade desse envoltório diminui à proporção que o Espírito se purifica. Em certos mundos mais adiantados do que a Terra, já ele é menos compacto, menos pesado e menos grosseiro e, por conseguinte, menos sujeito a vicissitudes. Em grau mais elevado, é diáfano e quase fluídico. Vai desmaterializando-se de grau em grau e acaba por se confundir com o perispírito. Conforme o mundo em que é levado a viver, o Espírito reveste o invólucro apropriado à natureza desse mundo.

    O próprio periespírito passa por transformações sucessivas. Torna-se cada vez mais etéreo, até à depuração completa, que é a condição dos puros Espíritos. Se mundos especiais são destinados a Espíritos de grande adiantamento, estes últimos não lhes ficam presos, como nos mundos inferiores. O estado de desprendimento em que se encontram lhes permite ir a toda parte onde os chamem as missões que lhes estejam confiadas.

    Se se considerar do ponto de vista material a encarnação, tal como se verifica na Terra, poder-se-á dizer que ela se limita aos mundos inferiores. Depende, portanto, de oEspírito libertar-se dela mais ou menos rapidamente, trabalhando pela sua purificação.

    Deve também considerar-se que no estado de desencarnado, isto é, no intervalo das existências corporais, a situação do Espírito guarda relação com a natureza do mundo a que o liga o grau do seu adiantamento. Assim, na erraticidade, é ele mais ou menos ditoso, livre e esclarecido, conforme está mais ou menos desmaterializado. S. Luís. (Paris, 1859.)

    Necessidade da encarnação

    25. É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?

    A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. E uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo. – S. Luís. (Paris, 1859.)

    26. NOTA. – Uma comparação vulgar fará se compreenda melhor essa diferença. O escolar não chega aos estudos superiores da Ciência, senão depois de haver percorrido a série das classes que até lá o conduzirão. Essas classes, qualquer que seja o trabalho que exijam, são um meio de o estudante alcançar o fim e não um castigo que se lhe inflige. Se ele é esforçado, abrevia o caminho, no qual, então, menos espinhos encontra. Outro tanto não sucede àquele a quem a negligência e a preguiça obrigam a passar duplamente por certas classes. Não é o trabalho da classe que constitui a punição; esta se acha na obrigação de recomeçar o mesmo trabalho.

    Assim acontece com o homem na Terra. Para o Espírito do selvagem, que está apenas no início da vida espiritual, a encarnação é um meio de ele desenvolver a sua inteligência; contudo, para o homem esclarecido, em quem o senso moral se acha largamente desenvolvido e que é obrigado a percorrer de novo as etapas de uma vida corpórea cheia de angústias, quando já poderia ter chegado ao fim, é um castigo, pela necessidade em que se vê de prolongar sua permanência em mundos inferiores e desgraçados. Aquele que, ao contrário, trabalha ativamente pelo seu progresso moral, além de abreviar o tempo da encarnação material, pode também transpor de uma só vez os degraus intermédios que o separam dos mundos superiores.

    Não poderiam os Espíritos encarnar uma única vez em determinado globo e preencher em esferas diferentes suas diferentes existências? Semelhante modo de ver só seria admissível se, na Terra, todos os homens estivessem exatamente no mesmo nível intelectual e moral. As diferenças que há entre eles, desde o selvagem ao homem civilizado, mostram quais os degraus que têm de subir. A encarnação, aliás, precisa ter um fim útil. Ora, qual seria o das encarnações efêmeras das crianças que morrem em tenra idade? Teriam sofrido sem proveito para si, nem para outrem. Deus, cujas leis todas são soberanamente sábias, nada faz de inútil. Pela reencarnação no mesmo globo, quis ele que os mesmos Espíritos, pondo-se novamente em contacto, tivessem ensejo de reparar seus danos recíprocos. Por meio das suas relações anteriores, quis, além disso, estabelecer sobre base espiritual os laços de família e apoiar numa lei natural os princípios da solidariedade, da fraternidade e da igualdade.

    Loki
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    132. Qual é a finalidade da encarnação dos Espíritos?

     — Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição: para uns, é uma expiação; para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea; nisto é que está a expiação. A encarnação tem ainda outra finalidade, que é a de pôr o Espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da Criação. É para executá-la que ele toma um aparelho em cada mundo, em harmonia com a matéria essencial do mesmo, afim de nele cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. E dessa maneira, concorrendo para a obra geral, também progredir.

    Comentário de Kardec: A ação dos seres corpóreos é necessária à marcha do Universo. Mas Deus, na sua sabedoria, quis que eles tivessem, nessa mesma ação, um meio de progredir e de se aproximarem dele. É assim que, por uma lei admirável de sua providência, tudo se encadeia, tudo é solidário na Natureza.

     133. Os Espíritos que, desde o princípio, seguiram o caminho do bem têm necessidade da encarnação?

     — Todos são criados simples e ignorantes e se instruem através das lutas e atribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer feliz a uns, sem penas e sem trabalhos, e por conseguinte sem mérito.

     133. a) Mas então de que serve aos Espíritos seguirem o caminho do bem, se isso não os isenta das penas da vida corporal?

     — Chegam mais depressa ao alvo. Além disso, as penas da vida sãofreqüentemente a conseqüência da imperfeição do Espírito. Quanto menosimperfeito ele for, menos tormentos sofrerá. Aquele que não for invejoso, nemciumento, nem avarento ou ambicioso, não passará pelos tormentos que seoriginam desses defeitos.

    Loki
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    166. A alma que não atingiu a perfeição durante a vida corpórea como acaba de depurar-se?

     — Submetendo-se à prova de uma nova existência.

     166 – a) Como ela realiza essa nova existência? Pela sua transformação como Espírito?

     — Ao se depurar, a alma sofre sem dúvida uma transformação, mas para isso necessita da prova da vida corpórea.

     166 – b) A alma tem muitas existências corpóreas?

     — Sim, todos nós temos muitas existências. Os que dizem o contrário querem manter-vos na ignorância em que eles mesmos se encontram; esse é o seu desejo.

     166 – c) Parece resultar, desse princípio, que após ter deixado o corpo a alma toma outro. Dito de outra maneira, que ela se reencarna em novo corpo. É assim que se deve entender?

     — É evidente.

      167. Qual a finalidade da reencarnação?

     — Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isso, onde estaria a justiça?

     168. O número das existências corpóreas é limitado ou o Espírito se reencarna perpetuamente?

     — A cada nova existência o Espírito dá um passo na sendo do progresso: quando se despojou de todas as impurezas, não precisa mais das provas da vida corpórea.

     169. O número das encarnações é o mesmo para todos os Espíritos?

     — Não. Aquele que avança rapidamente se poupa das provas. Não obstante, as encarnações sucessivas são sempre muito numerosas porque o progresso é quase infinito.

     170. Em que se transforma o Espírito depois de sua última encarnação?

     — Espírito bem-aventurado; um Espírito puro.

    Loki
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    Com licença, senhor Jesus, eu tenho uma pergunta…

    Quer dizer que João Batista, que “foi conhecido quando criança, e que tinha pai e e mãe conhecidos”, era a reencarnação de Elias?

    Mas acontece que isso não seria possível, pois Elias jamais morreu.

    Elias (Elijah) foi arrebatado aos céus em seu corpo físico, por um OVNI (chamado de “carruagem de fogo” na Bíblia), diante do testemunho de Eliseu, que presenciou a abdução.

    Se Elias foi abduzido em seu corpo físico, e não morreu, como sua alma poderia reencarnar em João Batista?

    Como isto é possível?

    Loki
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    Elias, assim como qualquer pessoa que tem a oportunidade de ir ao espaço, não aduiriu a imortalidade do corpo carnal.

    A alma é um espírito imortal encarnada em um corpo material, mas o corpo físico não é imortal, o corpo físico é matéria orgânica, e falece.

    Ao ser abduzido, Elias teve a experiência de conhecer outros mundos físicos e o espaço, mas um dia seu corpo físico/material/orgânico faleceu e seu espírito imortal pode reencarnar em outro corpo.

    Se a oportunidade de ir ao espaço, fosse o mesmo que tornar o corpo físico imortal, nenhum astronauta que já esteve em órbita na Terra como Yuri Gagarin, ou na Lua com Neil Armstrong, e tantos outros a bordo da ISS “International Space Station”, teriam a morte de seu corpo físico.

    Resumindo: O Corpo é apenas uma veste que o espírito troca da mesma forma que trocamos de roupa, o corpo é só uma casca, um casulo… Nossa personalidade, nossa individualidade não está no corpo, mas em nosso espírito que habita este corpo transitório e perecível….

    Loki
    Número de postagens: 18515

    *Elias, assim como qualquer pessoa que tem a oportunidade de ir ao espaço, não adquiriu a imortalidade do corpo carnal.

    Loki
    Número de postagens: 18515

    Senhor Jesus, não seria a “Lei do Retorno” (Karma), associada à reencarnação, uma INJUSTIÇA de proporções monstruosas?

    Que a “Lei do Retorno” venha a atuar dentro de uma mesma encarnação é compreensível e justo.

    Mas não é monstruosamente injusto que a “Lei do Retorno” atue de uma encarnação para outra?

    Afinal, ao encarnar novamente, os espírito passa a habitar o corpo de uma criança inocente, a qual não tem nenhuma memória de nenhuma “infração” que tenha cometido em uma vida passada.

    Não é monstruosamente injusto fazer com que esta pessoa “pague” pelos erros cometidos pelo seu espírito em uma encarnação anterior, da qual ela não tem NENHUMA MEMÓRIA, e portanto não sabe PORQUE está sendo punida?

    Loki
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    O Espírito de um estuprador ao reencarnar em uma criança continua sendo o espírito de um estuprador.

    Cabe aos pais re-educar com valores morais, este espírito enquanto criança até atingir a maioridade.

    É na fase da adolescência para a juventude que começam a aflorar a verdadeira personalidade e más tendências morais que o espírito encarnado traz como reminiscências de outras vidas.

    Caso este espírito de um estuprador, não tenha evoluído ainda e abandonado o vício e a obsessão pelo sexo, com certeza irá repetir nesta vida as mesmas faltas que cometeu em outras existências. E nada de injusto há em expiar (pagar) pelos seus erros.

    Se não houvesse expiação na vida presente, dos erros que tivéssemos cometido na vida passada. Mais injusta e impune seria a justiça de Deus. Pois um homem que matasse sua esposa e depois cometesse suicídio ficaria impune ao reencarnar novamente.

    Loki
    Número de postagens: 18515

    Não há nada de impune na “Lei do Retorno” pois: “então retribuirá a cada um segundo as suas obras.” (Mateus 16:27)

    171. Sobre o que se funda o dogma da reencarnação?

    Sobre a justiça
    de Deus e a revelação, pois não nos cansamos de repetir: um bom pai
    deixa sempre aos filhos uma porta aberta ao arrependimento. A razão não
    diz que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna daqueles
    cujo melhoramento não dependeu deles mesmos? Todos os homens não são
    filhos de Deus? Somente entre os homens egoístas é que se encontram a
    iniqüidade, o ódio implacável e os castigos sem perdão.

     Comentário de Kardec: Todos
    os Espíritos também tendem a perfeição, e Deus lhes proporciona os
    meios de consegui-la, com as provas da vida corpórea. Mas, na sua
    justiça, permite-lhes realizar, em novas existências, aquilo que não
    puderam fazer ou acabar numa primeira prova.

      Não
    estaria de acordo com a eqüidade, nem segundo a bondade de Deus,
    castigar para sempre aqueles que encontraram obstáculos ao seu
    melhoramento, independentemente de sua vontade, no próprio meio em que
    foram colocados. Se a sorte do homem fosse irrevogavelmente fixada após a
    sua morte, Deus não teria pesado as ações de todos na mesma balança e
    não os teria tratado com imparcialidade.

      A
    doutrina da reencarnação, que consiste em admitir para o homem muitas
    existências sucessivas, é a única que corresponde a idéia da justiça de
    Deus, com respeito aos homens de condição moral interior; a única que
    pode explicar o nosso futuro e fundamentar as nossas esperanças, pois
    oferece-nos o meio de resgatarmos os nossos erros através de novas
    provas. A razão assim nos diz, e é o que os Espíritos nos ensinam.

      O
    homem que tem consciência da sua inferioridade encontra na doutrina da
    reencarnação uma consoladora esperança. Se crê na justiça de Deus, não
    pode esperar que, por toda a eternidade, haja de ser igual aos que
    agiram melhor do que ele. O pensamento de que essa inferioridade não o
    deserdará para sempre do bem supremo e que ele poderá conquistá-lo
    através de novos esforços o ampara e lhe reanima a coragem. Qual é
    aquele que, no fim da sua carreira, não lamenta ter adquirido demasiado
    tarde uma experiência que já não pode aproveitar? Pois esta experiência
    tardia não estará perdida: ele a aproveitará numa nova existência.

    Loki
    Número de postagens: 18515

    As penas futuras segundo o Espiritismo

    A carne é fraca

    Há tendências viciosas que são evidentemente próprias do Espírito, porque se
    apegam mais ao moral do que ao físico; outras, parecem antes dependentes do
    organismo, e, por esse motivo, menos responsáveis são julgados os que as
    possuem: consideram-se como tais as disposições à cólera, à preguiça, à
    sensualidade, etc.

    Hoje, está plenamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas que os
    órgãos cerebrais correspondentes a diversas aptidões devem o seu desenvolvimento
    à atividade do Espírito. Assim, esse desenvolvimento é um efeito e não uma
    causa. Um homem não é músico porque tenha a bossa da música, mas possui essa
    tendência porque o seu Espírito é musical. Se a atividade do Espírito reage
    sobre o cérebro, deve também reagir sobre as outras partes do organismo.

    O Espírito é, deste modo, o artista do próprio corpo, por ele talhado, por
    assim dizer, à feição das suas necessidades e à manifestação das suas
    tendências.

    Desta forma a perfeição corporal das raças adiantadas deixa de ser produto de
    criações distintas para ser o resultado do trabalho espiritual, que aperfeiçoa o
    invólucro material à medida que as faculdades aumentam.

    Por uma conseqüência natural deste principio, as disposições morais do
    Espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior ou menor
    atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante de bílis ou de
    quaisquer outros fluidos. É assim, por exemplo, que ao glutão enche-se-lhe a
    boca de saliva diante dum prato apetitoso.

    Certo é que a iguaria não pode excitar o órgão do paladar, uma vez que com
    ele não tem contacto; é, pois, o Espírito, cuja sensibilidade é despertada, que
    atua sobre aquele órgão pelo pensamento, enquanto que outra pessoa permanecerá
    indiferente à vista do mesmo acepipe. É ainda por este motivo que a pessoa
    sensível facilmente verte lágrimas. Não é, porém, a abundância destas que dá
    sensibilidade ao Espírito, mas precisamente a sensibilidade deste que provoca a
    secreção abundante das lágrimas. Sob o império da sensibilidade, o organismo
    condiciona-se (1) à disposição normal do Espírito, do mesmo modo por que se
    condiciona à disposição do Espírito glutão.

      (1) O autor escreveu s’est approprié (p. 93, 4ª edição, Paris, 1869), à
      falta, na época, de verbo mais específico à perfeita tradução da idéia. Nota
      da Editora (FEB), em 1973.

    Seguindo esta ordem de idéias, compreende-se que um Espírito irascível deve
    encaminhar-se para estimular um temperamento bilioso, do que resulta não ser um
    homem colérico por bilioso, mas bilioso por colérico. O mesmo se dá em relação a
    todas as outras disposições instintivas: um Espírito indolente e fraco deixará o
    organismo em estado de atonia relativo ao seu caráter, ao passo que, ativo e
    enérgico, dará ao sangue como aos nervos qualidades perfeitamente opostas. A
    ação do Espírito sobre o físico é tão evidente que não raro vemos graves
    desordens orgânicas sobrevirem a violentas comoções morais.

    A expressão vulgar: – A emoção transtornou-lhe o sangue – não é tão
    destituída de sentido quanto se poderia supor. Ora, que poderia transtornar o
    sangue senão as disposições morais do Espírito?

    Pode admitir-se por conseguinte, ao menos em parte, que o temperamento é
    determinado pela natureza do Espírito, que é causa e não efeito.

    E nós dizemos em parte, porque há casos em que o físico influi evidentemente
    sobre o moral, tais como quando um estado mórbido ou anormal é determinado por
    causa externa, acidental, independente do Espírito, como sejam a temperatura, o
    clima, os defeitos físicos congênitos, uma doença passageira, etc.

    O moral do Espírito pode, nesses casos, ser afetado em suas manifestações
    pelo estado patológico, sem que a sua natureza intrínseca seja modificada.
    Escusar-se de seus erros por fraqueza da carne não passa de sofisma para escapar
    a responsabilidades.

    A carne só é fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão
    deixando àquele a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, destituída de
    pensamento e vontade, não pode prevalecer jamais sobre o Espírito, que é o ser
    pensante e de vontade própria.

    O Espírito é quem dá à carne as qualidades correspondentes ao seu instinto,
    tal como o artista que imprime à obra material o cunho do seu gênio. Libertado
    dos instintos da bestialidade, elabora um corpo que não é mais um tirano de sua
    aspiração, para espiritualidade do seu ser, e é quando o homem passa a comer
    para viver e não mais vive para comer.

    A responsabilidade moral dos atos da vida fica, portanto, intacta; mas a
    razão nos diz que as conseqüências dessa responsabilidade devem ser
    proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito. Assim, quanto mais
    esclarecido for este, menos desculpável se torna, uma vez que com a inteligência
    e o senso moral nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto.

    Esta lei explica o insucesso da Medicina em certos casos. Desde que o
    temperamento é um efeito e não uma causa, todo o esforço para modificá-lo se
    nulifica ante disposições morais do Espírito, opondo-lhe uma resistência
    inconsciente que neutraliza a ação terapêutica. Por conseguinte, sobre a causa
    primordial é que se deve atuar.

    Dai, se puderdes, coragem ao poltrão, e vereis para logo cessados os efeitos
    fisiológicos do medo. Isto prova ainda uma vez a necessidade, para a arte de
    curar, de levar em conta a influência espiritual sobre os organismos. (Revue
    Spirite, março de 1869, pág. 65.)

    Loki
    Número de postagens: 18515

    Princípios da Doutrina Espírita sobre as penas futuras

    A Doutrina Espírita, no que respeita às penas futuras, não se baseia numa
    teoria preconcebida; não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ela se
    apóia nas observações, e são estas que lhe dão plena autoridade. Ninguém jamais
    imaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tais ou quais
    condições; são elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos vêm hoje
    iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua situação feliz ou
    desgraçada, as impressões, a transformação pela morte do corpo, completando, em
    uma palavra, os ensinamentos do Cristo sobre este ponto.

    Preciso é afirmar que se não trata neste caso das revelações de um só
    Espírito, o qual poderia ver as coisas do seu ponto de vista, sob um só aspecto,
    ainda dominado por terrenos prejuízos. Tampouco se trata de uma revelação feita
    exclusivamente a um indivíduo que pudesse deixar-se levar pelas aparências, ou
    de uma visão extática suscetível de ilusões, e não passando muitas vezes de
    reflexo de uma imaginação exaltada. (1) T

    rata-se, sim, de inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de todas as
    categorias, desde os mais elevados aos mais inferiores da escala, por intermédio
    de outros tantos auxiliares (médiuns) disseminados pelo mundo, de sorte que a
    revelação deixa de ser privilégio de alguém, pois todos podem prová-la,
    observando-a, sem obrigar-se à crença pela crença de outrem.

      (1) Vede cap. VI, nº 7, e O Livro dos Espíritos nºs 443 e 444.

    Loki
    Número de postagens: 18515

    Código penal da vida futura

    O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código
    de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das
    observações do fato, pode resumir-se nos seguintes pontos:

    1º – A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as
    imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou
    desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

    2º A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação
    completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de
    privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e
    atenuante de sofrimentos.

    3º – Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e
    inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte
    de um gozo.

    A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a dos
    gozos à das qualidades.

    A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem
    três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade
    ou um quarto, menos sofrerá.

    De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na Terra,
    quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma.
    Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra
    menos rica de boas qualidades.

    4º – Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de
    adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o
    esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas.
    Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que
    atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.

    5º – Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma
    traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem
    necessidade de lugar circunscrito.

    O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu
    igualmente onde houver almas felizes.

    6º – O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não
    fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda
    imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal
    que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.

    7º – O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção
    constantemente dirigida para as conseqüências desse mal, melhor compreende os
    seus inconvenientes e trata de corrigir-se.

    8º – Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente
    considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que não tenha
    conseqüências fatais, como não na uma única ação meritória. um só bom movimento
    da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constituem tais
    ações um começo de progresso.

    9º – Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que
    deverá ser paga; se o não for em urna existência, sê-lo-á na seguinte ou
    seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se
    quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.

    10º – O Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a
    conseqüência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na
    vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas
    cometidas na presente ou em precedentes existências.

    Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se
    a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que
    as originaram.

    11º – A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo,
    portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as
    circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida.

    12º – Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do
    castigo: – a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa
    todo ato meritório, segundo o seu valor.

    13º – A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.

    Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige
    por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao
    bem.

    Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar
    os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática
    do bem.

    Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de
    continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando
    ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto
    existe, e deixa de o punir quando não existe mais (1); por outra, o mal moral,
    sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir
    aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.

      (1) Vede cap. VI, nº 25, citação de Ezequiel.

    14º – Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o culpado que
    jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.

    15º – Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem o
    termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal
    castigo. (2)

      (2) Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se o limite das neves perpétuas; o
      eterno gelo dos pólos; também se diz o secretário perpétuo da Academia, o que
      não significa que o seja ad perpetuam, mas unicamente por tempo ilimitado.
      Eterno e perpétuo se empregam, pois, no sentido de indeterminado. Nesta
      acepção pode dizer-se que as penas são eternas, para exprimir que não têm
      duração limitada; eternas, portanto, para o Espírito que lhes não vê o termo.

    16º – O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração,
    não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.

    Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições
    necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O
    arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho
    da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a
    causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

    17º – O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for
    tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.

    Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos
    sofrimentos físicos e morais que lhe são conseqüentes, seja na vida atual, seja
    na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.

    A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem
    não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á
    numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem
    queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes
    reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as
    faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos a reparação se opera,
    fazendo-se o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os deveres
    desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal
    praticado, isto é, tornando-se humilde se se tem sido orgulhoso, amável se se
    foi austero, caridoso se se tem sido egoísta, benigno se se tem sido perverso,
    laborioso se se tem sido ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem
    sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados. E
    desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado. (1)

      (1) A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça. que se
      pode considerar verdadeira lei de reabilitação morai dos Espíritos.
      Entretanto, essa doutrina religião alguma ainda a proclamou. Algumas pessoas
      repelem-na porque acham mais cômodo o poder quitarem-se das más ações por um
      simples arrependimento, que não custa mais que palavras, por meio de algumas
      fórmulas; contudo, crendo-se, assim, quites, verão mais tarde se isso lhes
      bastava. Nós poderíamos perguntar se esse principio não é consagrado pela lei
      humana, e se a justiça divina pode ser inferior à dos homens? E mais, se essas
      leis se dariam por desafrontadas desde que o indivíduo que as transgredisse,
      por abuso de confiança, se limitasse a dizer que as respeita infinitamente.

      Por que hão de vacilar tais pessoas perante uma obrigação que todo homem
      honesto se impõe como dever, segundo o grau de suas forças?

      Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das massas,
      será um outro freio aos seus desmandos, e bem mais poderoso que o inferno e
      respectivas penas eternas, visto como interessa a vida em sua plena
      atualidade, podendo o homem compreender a procedência das circunstâncias que a
      tornam penosa, ou a sua verdadeira situação.

    18º – Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja
    harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas
    pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que
    mereçam a encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e
    fisicamente. Se se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é,
    sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos
    imperfeitos, desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam
    reparar o mal, auxiliando-os no progresso.

    19º – Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se
    lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir
    anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica
    pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que
    o domina.

    Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento,
    Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir,
    votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que
    providencialmente rege todas as criaturas.

    20º – Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus
    jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda (guia) que por eles vela, na
    persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim,
    de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em
    uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia
    faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o
    Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer
    sujeição.

    O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e,
    conseguintemente, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro
    sentido.

    Persistindo no mal, sofrerá as conseqüências por tanto tempo quanto durar a
    persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente
    benéficos efeitos.

    OBSERVAÇÃO – Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso, a certeza
    de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a
    perseverança no mal, sob a condição do ulterior arrependimento: primeiro porque
    o Espírito inferior não se apercebe do termo da sua situação; e segundo porque,
    sendo ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si
    depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal será
    infeliz; finalmente, que o sofrimento será intérmino se ele próprio não lhe der
    fim. Seria, pois, um cálculo negativo, cujas conseqüências o Espírito seria o
    primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica,
    precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre interdita qualquer idéia de
    esperança, não tendo pois o homem interesse em converter-se ao bem, para ele sem
    proveito.

    Diante dessa lei, cai também a objeção extraída da presciência divina, pois
    Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude do seu livre-arbítrio,
    ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela será punida se fizer o mal; mas
    sabe também que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro,
    cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas
    conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente
    condenada a torturas infinitas.

    21º – A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por erros
    alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não
    os impedindo quando poderia fazê-lo.

    Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a
    cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.

    22º – Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há inerentes à
    inferioridade dos Espíritos, e cujas conseqüências, salvo pormenores, são pouco
    mais ou menos idênticas.

    A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida
    material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do
    desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na
    outra vida, na conseqüente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.

    Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já se
    acham identificados com a vida espiritual, o trespasse é rápido, sem abalos,
    quase nula a turbação de um pacífico despertar.

    23º – Um fenômeno mui freqüente entre os Espíritos de certa inferioridade
    moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por
    muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos
    os tormentos e perplexidades da vida.

    24º – Para o criminoso, a presença incessante das vitimas e das
    circunstâncias do crime é um suplício cruel.

    25º – Espíritos há mergulhados em densa treva; outros se encontram em
    absoluto insulamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição,
    como da sorte que os aguarda. Os mais culpados padecem torturas muito mais
    pungentes por não lhes entreverem um termo.

    Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passam com
    intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem
    ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo
    arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles
    mesmos, pôr um termo à sua situação.

    26º – Para o orgulhoso relegado às classes inferiores. é suplício ver acima
    dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na Terra desprezara. O
    hipócrita vê desvendados, penetrados e lidos por todo o mundo os seus mais
    secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular; o sátiro, na
    impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz
    tormento; vê o avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro, enquanto que o
    egoísta, desamparado de todos, sofre as conseqüências da sua atitude terrena;
    nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às
    suas mãos súplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se
    compadecerá na morte.

    27º – O único meio de evitar ou atenuar as conseqüências futuras de uma
    falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos
    na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as
    suas conseqüências.

    28º – A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a por si
    mesmo preparada na vida corpórea.

    Mais tarde, outra encarnação se lhe faculta para novas provas de expiação e
    reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre-arbítrio; e se
    ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais
    acerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito
    tinha a expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos seus
    vícios e inutilidades, paga-la-ão mui caro em ulterior existência. Nesse sentido
    foi que Jesus disse: – “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados,” (O
    Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V.)

    29º – Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que
    ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito à justiça,
    sofre a conseqüência dos seus erros. Por infinita misericórdia, devemos ter que
    Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.

    30º – Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade
    humana, as penas, por temporárias, constituem concomitantemente castigos e
    remédios auxiliares à cura do mal. Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais
    galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de
    moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com meios curativos
    mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta
    quanto mais estritamente observadas as prescrições do solícito médico
    assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a
    enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.

    31º – As penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da
    vida corpórea, que são conseqüentes às imperfeições do homem, às suas paixões,
    ao mau uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas. z na
    vida corpórea que o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em
    prática resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e
    vicissitudes mundanas que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser.
    Justas são elas, no entanto, como espólio do passado – herança que serve à nossa
    romagem para a perfectibilidade. (1)

      (1) Vede 1ª’ Parte, cap. V, “O purgatório”, nº 3 e seguintes; e, após, 2ª
      Parte, cap. VIII, “Expiações terrestres”. Vede, também, O Evangelho segundo o
      Espiritismo, cap. V, “Bem-aventurados os aflitos”.

    32º – Deus, diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas,
    criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios inerentes à
    imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele criasse seres perfeitos, nada mais
    tendo a adquirir, quer em conhecimentos, quer em moralidade. Certo, porém, Deus
    poderia fazê-lo, e se o não fez é que em sua sabedoria quis que o progresso
    constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos a
    vicissitudes mais ou menos penosas. E pois que o fato existe, devemos aceitá-lo.

    Inferir dele que Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a
    lei.

    injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos
    favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não atingem senão pelo
    trabalho, ou que jamais pudessem atingir. Ao contrário, a justiça divina
    patenteia-se na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos; todos
    têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor
    aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que
    chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade
    e respectivas provas.

    Isto posto, nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual concedida. O
    caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos as mesmas condições
    para atingi-la. A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada.
    Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que cada
    qual tivesse seu mérito.

    Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa
    trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra, ou em
    caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.

    O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é
    fatalmente impelido para um nem para outro.

    33º – Em que pese à diversidade de gêneros e graus de sofrimentos dos
    Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três
    princípios:

    1º – O sofrimento é inerente à imperfeição.

    2º – Toda imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo o
    próprio castigo nas conseqüências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune
    os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação
    especial para cada falta ou indivíduo.

    3º – Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade,
    pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.

    A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: – tal é a lei da
    Justiça Divina.

    Loki
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    O Céu e o Inferno

    OU

    A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO

    Exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida
    espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e
    demônios, sobre as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação
    real da alma durante e depois da morte

    P O R

    ALLAN KARDEC

    “Por mim mesmo juro – disse o Senhor Deus – que não quero a morte do ímpio,
    senão que ele se converta, que deixe o mau caminho e que viva”. (EZEQUIEL,
    33:11.)

    CAPÍTULO VIII

    Expiações terrestres

    Marcel, o menino do nº 4
    Szymel SlizgolJulienne-Marie, a mendiga
    Max, o mendigoHistória de um criado
    Antonio B Letil
    Um sábio ambicioso
    Charles de Saint-G …, idiota
    Adélaide-Marguerite GosseClara Rivier
    Françoise VernhesAnna Bitter
    Joseph Maître, o cego


    MARCEL, o menino do nº 4

    Havia num hospital de província um menino de 8 a 10 anos, cujo estado era
    difícil precisar. Designavam-no pelo nº 4. Totalmente contorcido, já pela sua
    deformidade inata, já pela doença, as pernas se lhe torciam roçando pelo
    pescoço, num tal estado de magreza, que eram pele sobre ossos. O corpo, uma
    chaga; os sofrimentos, atrozes. Era oriundo de uma família israelita. A moléstia
    dominava aquele organismo, já de oito longos anos, e no entanto demonstrava o
    enfermo uma inteligência notável, além de candura, paciência e resignação
    edificantes. O médico que o assistia, cheio de compaixão pelo pobre um tanto
    abandonado, visto que seus parentes pouco o visitavam, tomou por ele certo
    interesse. E achava-lhe um quê de atraente na precocidade intelectual. Assim,
    não só o tratava com bondade, como lia-lhe quando as ocupações lho permitiam,
    admirando-se do seu critério na apreciação de coisas a seu ver superiores ao
    discernimento da sua idade. Um dia, o menino disse-lhe: – “Doutor, tenha a
    bondade de me dar ainda uma vez aquelas pílulas ultimamente receitadas.” Para
    quê? replicou-lhe o médico, se já te ministrei o suficiente, e maior quantidade
    pode fazer-te mal… –

    “É que eu sofro tanto, que dificilmente posso orar a Deus para que me dê
    forças, pois não quero incomodar os outros enfermos que aí estão. Essas pílulas
    fazem-me dormir e, ao menos quando durmo, a ninguém incomodo.”

    Aqui está quanto basta para demonstrar a grandeza dessa alma encerrada num
    corpo informe. Onde teria ido essa criança haurir tais sentimentos? Certo, não
    foi no meio em que se educou; além disso, na idade em que principiou a sofrer,
    não possuía sequer o raciocínio.

    Tais sentimentos eram-lhe inatos: – mas então por que se via condenado ao
    sofrimento, admitindo-se que Deus houvesse concomitantemente criado uma alma
    assim tão nobre e aquele mísero corpo instrumento dos suplícios?

    É preciso negar a bondade de Deus, ou admitir a anterioridade de causa; isto
    é, a preexistência da alma e a pluralidade das existências.

    Os últimos pensamentos desta criança, ao desencarnar, foram para Deus e para
    o caridoso médico que dela se condoeu. Decorrido algum tempo, foi o seu Espírito
    evocado na Sociedade de Paris, onde deu a seguinte comunicação (1863):

    “A vosso chamado, vim fazer que a minha voz se estenda para além deste
    círculo, tocando todos os corações. Oxalá seu eco se faça ouvir na solidão,
    lembrando-lhes que as agonias da Terra têm por premissas as alegrias do céu; que
    o martírio não é mais do que a casca de um fruto deleitável, dando coragem e
    resignação.

    “Essa voz lhes dirá que, sobre o catre da miséria, estão os enviados do
    Senhor, cuja missão consiste na exemplificação de que não há dor insuperável,
    desde que tenhamos o auxílio do Onipotente e dos seus bons Espíritos. Essa voz
    lhes fará ouvir lamentações de mistura com preces, para que lhes compreendam a
    harmonia piedosa, bem diferente da de coros de lamentações mescladas com
    blasfêmias.

    “Um dos vossos bons Espíritos, grande apóstolo do Espiritismo, cedeu-me o seu
    lugar por esta noite. (1) Por minha vez, também me compete dizer algo sobre o
    progresso da vossa Doutrina, que deve auxiliar em sua missão os que entre vós
    encarnam para aprender a sofrer. O Espiritismo será a pedra de toque; os
    padecentes terão o exemplo e a palavra, e então as imprecações se transformarão
    em gritos de alegria e lágrimas de contentamento.”.

      (1) Santo Agostinho, pelo médium com o qual habitualmente se comunica na
      Sociedade.

    – P. Pelo que afirmais, parece que os vossos sofrimentos não eram expiação de
    faltas anteriores…

    R. – Não seriam uma expiação direta, mas asseguro-vos que todo sofrimento tem
    uma causa justa. Aquele a quem conhecestes tão mísero foi belo, grande, rico e
    adulado. Eu tivera turiferários e cortesãos, fora fútil e orgulhoso.
    Anteriormente fui bem culpado; reneguei Deus, prejudiquei meu semelhante, mas
    expiei cruelmente, primeiro no mundo espiritual e depois na Terra. Os meus
    sofrimentos de alguns anos apenas, nesta última encarnação, suportei-os eu
    anteriormente por toda uma existência que ralou pela extrema velhice. Por meu
    arrependimento reconquistei a graça do Senhor, o qual me confiou muitas missões,
    inclusive a última, que bem conheceis. E fui eu quem as solicitou, para terminar
    a minha depuração.

    Adeus, amigos; tornarei algumas vezes. A minha missão é de consolar, e não de
    instruir. Há, porém, aqui muitas pessoas cujas feridas jazem ocultas, e essas
    terão prazer com a minha presença. Marcel..

    Instruções do guia do médium

    Pobrezinho sofredor, definhado, ulceroso e disforme! Nesse asilo de misérias
    e lágrimas, quantos gemidos exalados! E como era resignado… e como a sua alma
    lobrigava já então o termo dos sofrimentos, apesar da tenra idade! No
    além-túmulo, pressentia a recompensa de tantos gemidos abafados, e esperava! E
    como orava também por aqueles que não tinham resignação no sofrimento, pelos que
    trocavam preces por blasfêmias!

    Foi-lhe lenta a agonia, mas terrível não lhe foi a hora do trespasse; certo,
    os membros convulsos contorciam-se, oferecendo aos assistentes o espetáculo de
    um corpo disforme a revoltar-se contra a sorte, nessa lei da carne que a todo o
    custo quer viver; mas, um anjo bom lhe pairava por sobre o leito mortuário e
    cicatrizava-lhe o coração. Depois, esse anjo arrebatou nas asas brancas essa
    alma tão bela a escapar-se de tão horripilante corpo, e foram estas as palavras
    pronunciadas: “Glória a vós, Senhor, meu Deus!” E a alma subiu ao Todo-Poderoso,
    feliz, e exclamou: “Eis-me aqui, Senhor; destes-me por missão exemplificar o
    sofrimento… terei suportado dignamente a provação?”

    Hoje, o Espírito da pobre criança avulta, paira no Espaço, vai do fraco ao
    humilde, e a todos diz: – Esperança e coragem. Livre de todas as impurezas da
    matéria, ele aí está junto de vós a falar-vos, a dizer-vos não mais com essa voz
    fraca e lastimosa, porém agora firme: “Todos que me observaram, viram que a
    criança não murmurava; hauriram nesse exemplo a calma para os seus males e seus
    corações se tonificaram na suave confiança em Deus, que outro não era o fim da
    minha curta passagem pela Terra.” Santo Agostinho.

    Loki
    Número de postagens: 18515

    SZYMEL SLIZGOL

    Este não passou de um pobre israelita de Vilna, falecido em maio de 1865.
    Durante 30 anos mendigou com uma salva nas mãos. Por toda a cidade era bem
    conhecida aquela voz que dizia: “Lembrai-vos dos pobres, das viúvas e dos
    órfãos!” Por essa longa peregrinação Slizgol havia juntado 90.000 rublos, não
    guardando, porém, para si um só copeque. Aliviava e curava os enfermos; pagava o
    ensino de crianças pobres; distribuía aos necessitados a comida que lhe davam.

    A noite, destinava-a ele ao preparo do rapé, que vendia a fim de prover às
    suas necessidades, e o que lhe sobrava era dos pobres. Foi só no mundo, e no
    entanto o seu enterro teve o acompanhamento de grande parte da população de
    Vilna, cujos armazéns cerraram as portas.

    Sociedade de Paris, 15 de junho de 1865

    Evocação: Excessivamente feliz, chegado, enfim, à plenitude do que mais
    ambicionava e bem caro paguei, aqui estou, entre vós, desde o cair da noite.
    Agradecido, pelo interesse que vos desperta o Espírito do pobre mendigo, que,
    com satisfação, vai procurar responder às vossas perguntas.

    – P. Uma carta de Vilna nos deu conhecimento das particularidades mais
    notáveis da vossa existência, e da simpatia que tais particularidades nos
    inspiram nasceu o desejo de nos comunicar convosco. Agradecemos a vossa
    presença, e, uma vez que quereis responder-nos, principiaremos por vos assegurar
    que mui felizes seremos se, para nossa orientação, pudermos conhecer a vossa
    posição espiritual, bem como as causas que determinaram o gênero de vida que
    tivestes na última encarnação.

    – R. Em primeiro lugar, concedei ao meu Espírito, cônscio da sua verdadeira
    posição, o favor de vos transmitir a sua opinião, com respeito a um pensamento
    que vos ocorreu quanto. à minha personalidade. E reclamo previamente os vossos
    conselhos, para o caso de ser falsa essa minha opinião.

    Parece-vos singular que as manifestações públicas tomassem tanto vulto, para
    homenagear a memória do homem insignificante que soube por seu Espírito caridoso
    atrair tal simpatia. Não me refiro a vós, caro mestre, nem a ti, prezado médium,
    nem a vós outros verdadeiros e sinceros espíritas; falo, sim, para as pessoas
    indiferentes a crença, pois, nisso, nada houve de extraordinário. A pressão
    moral exercida pela prática do bem, sobre a Humanidade, é tal que, por mais
    materializada que esta seja, inclina-se sempre, venera o bem, a despeito da sua
    tendência para o mal.

    Agora, as perguntas que, da vossa parte, não são ditadas pela curiosidade,
    mas simplesmente formuladas no intuito de ampliar o ensino. Visto que disponho
    de liberdade, vou, portanto, dizer-vos, o mais laconicamente possível, quais as
    causas determinantes da minha última existência.

    Faz muitos séculos, vivia eu com o título de rei, ou, pelo menos, de príncipe
    soberano. Dentro da esfera do meu poder relativamente limitado, em confronto com
    os atuais Estados, era eu, no entanto, absoluto senhor dos meus vassalos, como
    dos seus destinos, e governava-os tiranicamente, ou antes digamos o próprio
    termo como algoz.

    Dotado de caráter impetuoso, violento, além de avaro e sensual, podeis
    avaliar qual deveria ter sido a sorte dos pobres seres sujeitos ao meu domínio.
    Além de abu-sar do poder para oprimir o fraco, eu subordinava empregos,
    trabalhos e dores ao serviço das próprias paixões. Assim, impunha uma dízima ao
    produto da mendicidade, e ninguém poderia acumular sem que eu antecipadamente
    lhe tomasse uma cota avultada, dessas sobras que a piedade humana deixava
    resvalar para as sacolas da miséria. E mais ainda: a fim de que não decrescesse
    o número de mendigos entre os meus vassalos, proibia aos infelizes darem aos
    amigos, parentes e fâmulos necessitados a parte insignificante do que ainda lhes
    restava. Em uma palavra, fui tudo quanto se pode imaginar de mais cruel, em
    relação ao sofrimento e à miséria alheia. No meio de sofrimentos horrorosos,
    acabei por perder isso a que chamais – vida, tanto que minha morte era apontada
    como exemplo aterrador a quantos como eu, posto que em menor escala, tinham o
    mesmo modo de pensar.

    Como Espírito, permaneci na erraticidade durante três e meio séculos, e,
    quando ao fim desse tempo compreendi que a razão de ser da reencarnação era
    inteiramente outra que não a seguida por meus grosseiros sentidos, obtive à
    força de preces, de resignação e de pesares a permissão de suportar
    materialmente os mesmos sofrimentos que infligira, e mais profundamente
    sensíveis que os por mim ocasionados. Obtida a permissão, Deus concedeu que por
    meu livre-arbítrio aumentasse os sofrimentos físicos e morais. Graças à
    assistência dos bons Espíritos, persisti na prática do bem, e sou-lhes
    agradecido por me terem impedido de sucumbir sob o fardo que tomara. Finalmente,
    preenchi uma existência de abnegação e caridade, que por si resgatou as faltas
    de outra, cruel e injusta. Nascido de pais pobres e cedo orfanado, aprendi a
    ganhar o pão numa idade em que muitos consideram incapaz o raciocínio.

    Vivi sozinho, sem amor, sem afeições, e desde o princípio suportei as
    brutalidades que para com outros havia exercido.

    Dizem que as somas por mim esmoladas foram todas destinadas ao alívio dos
    meus semelhantes: – É um fato inconcusso, ao qual, sem orgulho nem ênfase, devo
    acrescentar que – muitíssimas vezes, com sacrifício de privações relativamente
    imperiosas, aumentava o beneficio que me permitiam fazer à caridade pública.
    Desencarnei calmamente, confiando no valor da minha reparação, e sou premiado
    muito mais do que poderiam ter cogitado as minhas secretas aspirações. Hoje sou
    feliz, felicíssimo, podendo afirmar-vos que todos quantos se elevam serão
    humilhados, como elevados serão todos quantos se humilharem.

    – P. Tende a bondade de dizer-nos em que consistiu a vossa expiação no mundo
    espiritual, e quanto tempo durou, a contar da vossa morte até ao momento da
    atenuação por efeito do arrependimento e das boas resoluções. Dizei-nos também o
    que foi que provocou a mudança das vossas idéias, no estado espiritual.

    – R. Essa pergunta desperta-me muitas recordações dolorosas! Quanto sofri
    eu… Mas não, que me não lamento: – apenas recordo!… Quereis saber a natureza
    da minha expiação? Pois ei-la na sua terrível hediondez:

    Carrasco que fui de todos os bons sentimentos, fiquei por muito, por longo
    tempo preso pelo perispírito ao corpo em decomposição. Até que esta se
    completasse, vime corroído pelos vermes – o que muito me torturava! e quando me
    vi liberto das peias que me prendiam ao instrumento do suplício, mais cruel
    suplício me esperava!… Depois do sofrimento físico, o sofrimento moral muito
    mais longo. Fui colocado em presença de todas as minhas vítimas. Periodicamente,
    constrangido por uma força superior, era eu levado a rever o quadro vivo dos
    meus crimes. E via física e moralmente todas as dores que a outrem fizera
    sofrer! Ah! meus amigos, que terrível é a visão constante daqueles a quem
    fizemos mal! Entre vós, tendes apenas um fraco exemplo no confronto do acusado
    com a sua vítima. Aí tendes, em resumo, o que sofri durante três e meio séculos,
    até que Deus, compadecido da minha dor e tocado pelo meu arrependimento,
    solicitado pelos que me assistiam, permitisse a vida de expiação que conheceis.

    – P. Algum motivo particular vos induziu à escolha da última existência,
    subordinada à religião israelita?

    – R. Não escolhi por mim só, mas ouvi o conselho dos meus guias. A religião
    de Israel era uma pequena humilhação a mais na minha prova, visto como em certos
    países a maioria dos encarnados menosprezam os judeus, e principalmente os
    judeus mendicantes.

    – P. Na Terra, com que idade começastes a vossa obra de expiação? Como vos
    ocorreu o pensamento de vos desobrigar das resoluções previamente tomadas? Ao
    exercerdes tão abnegadamente a caridade, teríeis a intuição das causas que a
    isso vos predispunham?

    – R. Meus pais eram pobres, porém inteligentes e avaros. Moço ainda, eu fui
    privado da afeição e carinhos de minha mãe. A perda desta me causou tanto maior
    e fundo pesar, quanto meu pai, dominado pela avidez de ganhos, me abandonava por
    completo. Quanto aos meus irmãos, todos mais velhos do que eu, não pareciam
    aperceber-se das minhas mágoas. Foi um outro judeu quem, movido por sentimento
    mais egoístico do que caritativo, me recolheu em sua casa e me ensinou a
    trabalhar. O que isso lhe custara era largamente compensado pelo meu trabalho,
    aliás excedente multas vezes às minhas forças. Mais tarde, liberto desse jugo,
    trabalhei por minha conta; mas em toda parte, no trabalho como no repouso,
    perseguia-me a saudade de minha mãe, e, à medida que avançava em anos, a
    lembrança desse ser mais fundamente se me gravara na memória, lamentando em
    demasia a perda do seu amor e do seu zelo. Não tardou fosse eu o único dos meus,
    pois a morte em breve, dentro de meses, ceifou-me toda a família. Então,
    principiou a manifestar-se-me o modo pelo qual havia de passar o resto da vida.
    Dois dos meus irmãos deixaram órfãos, e eu, comovido pela recordação do que como
    órfão sofrera, quis preservar os pobrezinhos de uma juventude igual à minha.

    Não produzindo o meu trabalho o suficiente para sustentá-los a todos, comecei
    a pedir esmola, não para mim, mas para outros. A Deus não aprazia visse eu o
    resultado, a consolação dos meus esforços, e assim foi que também os pobrezinhos
    me deixaram para sempre.

    Eu bem via o que lhes faltava – era a mãe. Resolvi, pois, pedir para as
    viúvas infelizes que, sem poderem trabalhar para si e seus filhinhos, se
    impunham privações fatais, que acabavam por matá-las, legando ao mundo pobres
    órfãos abandonados e votados aos tormentos que eu mesmo suportara.

    A esse tempo contava eu 30 anos, e nessa idade, saudável e vigoroso, viram-me
    pedir para a viúva e para o órfão. Penosos me foram os primeiros passos, a
    suportar mais de um epíteto deprimente; quando, porém, se certificaram de que eu
    realmente distribuía pelos pobres o que recebia; quando souberam que a essa
    distribuição ainda ajuntava as sobras do meu trabalho; então, adquiri certo
    conceito que não deixava de me ser grato.

    Durante os 60 e alguns anos dessa peregrinação terrena, nunca deixei de
    atender à tarefa que me impusera. Também jamais a consciência me fez sentir que
    causas anteriores à existência fossem o móbil do meu proceder. Um dia somente, e
    antes de começar a pedir, ouvi estas palavras:

    “Não façais a outrem o que não quiserdes que vos façam.”

    Surpreendido pelos princípios gerais de moralidade contidos nessas poucas
    palavras, muitas vezes parecia-me ouvi-las acrescidas com estas outras: – “Mas
    fazei, ao contrário, o que quiserdes que vos façam.” Tendo por auxiliares a
    lembrança de minha mãe e dos meus próprios sofrimentos, continuei a trilhar uma
    senda que a minha consciência dizia ser boa.

    Vou terminar esta longa comunicação, dizendo: – Obrigado!

    Imperfeito ainda, sei, contudo, que o mal só acarreta o mal, e de novo, como
    já o fiz, dedicar-me-ei ao bem para alcançar a felicidade. Szymel Slizgol.

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Responder a: Ressurreição x Reencarnação
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