home Fóruns Geral A Matrix realmente existente

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    Olá pessoal!


    Li essa reflexão brilhante do Augusto de Franco, em um grupo interessantíssimo criado por ele, a Escola de Redes, e acho que merece disseminação.

    Vou colocar aqui somente uma parte do texto (por ser bem extenso) e no fim o link para o conteúdo completo. 

    O texto é bem longo, mas como afirmei para os amigos que compartilhei por e-mail, vale cada centavo de leitura.



    A MATRIX EXISTE?

    O título originalmente planejado para este texto era afirmativo: “A Matrix Existe”. Abri até um grupo no Facebook, exatamente com esse nome, para reunir reflexões sobre o tema. À medida que o papo rolava lá no grupo fui sendo assaltado, porém, por crescentes dúvidas.

    Como se sabe a idéia de Matrix surgiu com a trilogia cinematográfica dos irmãos Wachowski – The Matrix (1999), The Matrix Reloaded (2003) e Matrix Revolutions (2003) – cujo argumento (do primeiro filme) foi sofrivelmente apresentado pelas distribuidoras mais ou menos assim: “Em um futuro próximo, o jovem programador Thomas Anderson, um hacker de codinome Neo, que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos, nos quais se encontra conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Em todas essas ocasiões acorda gritando no exato momento em que os eletrodos estão para penetrar em seu cérebro. À medida que o sonho se repete, Anderson começa a ter dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus e Trinity, Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima da Matrix, um sistema inteligente artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e os corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus está convencido de que Thomas é o aguardado messias capaz de enfrentar a Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade”.

    A tese central do filme – refiro-me não apenas ao primeiro filme, mas à trilogia completa (1999-2003) – foi vista assim por alguns: “o que experimentamos como realidade é uma realidade virtual artificial gerada pela ‘Matrix’, o megacomputador acoplado às nossas mentes” (1). E, de certo modo, foi essa a visão que se generalizou. Mas eu não tinha tal apreensão da metáfora. Apreendia seu lado social, não o seu lado, por assim dizer, tecnológico. Inclusive porque achava (e continuo achando) que toda ‘realidade’ é virtual, em um sentido ampliado do termo.

    Por outro lado, o filme passa também uma visão conspiratória. Como se existissem centros manipuladores responsáveis pela alienação massiva das pessoas. Também não penso assim. Não existe um Grande Irmão (humano ou extra-humano) que tudo controla. Acho que a Matrix, se existe, só existe porque é replicada por nós, continuamente (como escrevi em 2009, no texto “Você é o inimigo”) (2). Trabalhar com a metáfora da Matrix significa, para mim, rejeitar a hipótese de que existe um culpado, um inimigo universal responsável por todo mal que nos assola.

    Então transformei o nome originalmente imaginado em uma pergunta, colocando-a como título desta introdução. A temática social (ou antissocial, em um sentido maturaniano do termo) permanece todavia. As pessoas continuam reproduzindo comportamentos muito semelhantes – que deformam o campo social – como se estivessem sob a influência de um mesmo sistema de crenças, valores, normas de comportamento e padrões de organização; ou como se rodassem um programa básico que foi instalado em suas mentes e acham que o mundo (ou ‘a realidade’) é assim mesmo. Ora, isso evoca a metáfora do filme The Matrix, no qual máquinas poderosas, com inteligência artificial, controlam a humanidade cativa e as pessoas vão vivendo suas vidas, monótonas ou frenéticas, em suas modernas colmeias humanas, sem saber disso, tomando a aparência pela realidade.

    Há um paralelo que dá sentido à apreensão social da metáfora. Na Matrix realmente existente, as pessoas não veem que seu comportamento replicante deforma o campo social. Elas acham que o mundo social só pode ser interpretado por meio de um conjunto de crenças básicas de referência, que tomam por verdades evidentes por si mesmas, axiomas que não carecem de corroboração. Exemplos dessas crenças são as de que:

    – O ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo.
    – As pessoas sempre fazem escolhas tentando maximizar a satisfação de seus próprios interesses materiais (egotistas).
    – Sem líderes destacados não é possível mobilizar e organizar a ação coletiva.
    – Nada pode funcionar sem um mínimo de hierarquia.

    Essas crenças básicas são como parâmetros do programa que foi instalado nas pessoas. Então elas não se dão conta de que, ao agir com base nesses pressupostos (em geral não-declarados, mas sempre presentes), reproduzem a realidade social que foi deformada. Em outras palavras, elas não percebem a deformação: porque todo mundo sabe que é impossível ser de outro modo.

    Essas crenças comuns, que nada têm de científicas (embora sejam justificadas com base em verossimilhança científica) estão rodando – como um malware – na nuvem social que chamamos de mente. E estão tão profundamente instaladas no andar de baixo – ou fundeadas como pré-conceitos no subsolo das consciências (seja lá o que isso for) – que não podem sequer ser percebidas. Em geral as pessoas não sabem que estão agindo dentro do “horizonte de eventos” configurado por elas. Como na conhecida anedota daquele cara que ‘não sabia que era impossível, foi lá e fez’, as pessoas, em geral, não fazem nada diferente – que contrarie essas prescrições básicas de funcionamento do mundo social – porque sabem que é impossível.

    Evidentemente estamos aqui tratando de cultura, quer dizer, de transmissão não-genética de comportamentos, de um programa que roda na rede social deformando o campo (3). Um software que modifica o hardware. Um hardware que, uma vez modificado, induz a replicação do software; ou seja, instala automaticamente o programa nas pessoas que a ele se conectam.

    A cultura de que estamos tratando é aquela que vem se replicando há alguns milênios, desde que a rede social foi verticalizada com a ereção de instituições centralizadas. Alguns a chamam de cultura patriarcal ou guerreira. Na verdade seu surgimento coincide com o que chamamos de civilização (palavra que a argúcia de William Irwin Thompson traduziu corretamente por militarização) (4). Mas se trata apenas da cultura hierárquica.

    Num sentido geral aplica-se a palavra hierarquia para designar quaisquer arranjos de itens (objetos, nomes, valores, categorias) nos quais esses itens são representados como estando “acima”, “abaixo”, ou “no mesmo nível” de outro. Em matemática o conceito designa um conjunto ordenado ou um grafo dirigido sem ciclos direcionados (grafo acíclico dirigido, abreviado por DAG – Directed Acyclic Graph). Mas esse é um sentido deslizado do original. O termo surgiu para designar ordens de seres intermediários entre entidades celestes e terrestres (e foi usado, por exemplo, por Pseudo-Dionísio, o Areopagita, no século 5 para designar os coros angélicos).

    A palavra hierarquia vem da palavra latina hierarquia que, por sua vez, vem da palavra grega ἱεραρχία (hierarchía), de ἱεράρχης (hierarches), aquele que era encarregado de presidir os ritos sagrados: ἱερεύς = hiereus, sacerdote, da raiz ἱερός = hieros, sagrado + ἀρχή = arché, tomada em várias acepções conexas como as de poder, governo, ordem, princípio (organizativo).

    A hierarquia é um poder sacerdotal vertical que se instala em uma sociedade instituindo artificialmente a necessidade da intermediação por meio de separações (entre superiores e inferiores). Em geral é representada pela pirâmide (poucos em cima e muitos em baixo) ou pela aranha (que tem uma cabeça e vários braços ou pernas, em oposição a uma estrela-do-mar, que não tem centro de comando e controle). A hierarquia celeste (com seus serafins, querubins, tronos, dominações, potestades, virtudes, principados, arcanjos e anjos) e a hierarquia militar (com generais, coronéis, majores, capitães, tenentes, sargentos, cabos e soldados) são os exemplos mais comuns, paradigmáticos, de hierarquia. Mas qualquer padrão de organização que introduz anisotropias no campo social direcionando fluxos é hierárquico (seja em uma organização estatal, empresarial ou social, religiosa ou laica, militar ou civil). O organograma básico de um órgão do governo, de uma empresa ou de uma entidade da sociedade civil ilustra o padrão de organização hierárquico (as denominações particulares das posições, funções, cargos ou patentes, pouco importam):


    A hierarquia é um padrão de organização que se reproduz como um todo. É uma deformação no campo social que afeta todos os eventos que ocorrem nesse campo porque condiciona o fluxo interativo a passar por determinados caminhos (e não por outros).

    Do ponto de vista da topologia da rede social, hierarquia é sinônimo de centralização. Há poder – no sentido de poder de mandar nos outros – na exata medida em que há centralização (ou seja, hierarquização).

    Para entender melhor esse ponto de vista é necessário examinar os diagramas de Paul Baran (1964), publicados no famoso paper “On distributed communications” (5), para perceber as diferenças entre padrões: centralizado, descentralizado e distribuído.


    No diagrama (B) da figura acima temos o padrão descentralizado que não representa uma topologia sem centro, mas, pelo contrário, uma configuração multicentralizada. Este padrão nada mais é do que uma hierarquia (correspondendo a um organograma de qualquer entidade hierárquica, como o que foi representado na figura anterior).

    A hierarquia é uma intervenção centralizante na rede social (ou uma deformação verticalizante do campo social) que permite excluir nodos (desconectar ou eliminar pessoas), apartar clusters (separar ou eliminar atalhos) e suprimir caminhos (obstruir fluxos, filtrar ou eliminar conexões). Sem fazer qualquer uma dessas três coisas é impossível erigir uma hierarquia (ou exercer poder sobre os outros: o que é a mesma coisa). Em redes totalmente distribuídas não há como fazer nada disso. No entanto, as redes sociais realmente existentes não são, em geral, totalmente distribuídas, mas apresentam graus diferentes de distribuição (ou, inversamente, de centralização) (6).

    Mas sem isso – sem centralização, sem a possibilidade de exercer poder sobre os outros – diz-se (diz a cultura hierárquica), nada poderia funcionar: as pessoas não poderiam ser educadas, não aprenderiam a respeitar as regras que garantem a coexistência social e acabariam se entregando a uma guerra de todos contra todos (porque “a besta humana não seria domada”), as sociedades não evoluiriam, não teríamos a filosofia, a ciência, a arte, as técnicas, enfim… o progresso. Estaríamos ainda na idade da pedra. Na Matrix as pessoas acreditam nisso ou se comportam como se acreditassem, o que é a mesma coisa.

    Segundo meu ponto de vista, portanto, a hierarquia é a Matrix realmente existente.
    Ao viver em sistemas hierárquicos você se transforma, em alguma medida, em um autômato e um replicante da Matrix (uma espécie de unidade borg) (7).
    Sim, nesse sentido alguma coisa que evoca fortemente a Matrix existe mesmo.  Então resolvi chamar a coisa pelo nome.
    O que vem a seguir são explorações imaginativas na Matrix realmente existente, quer dizer, livres investigações sobre a hierarquia.

    LEIA O TEXTO COMPLETO – VALE MUITO A PENA:
    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    Matrix não foi apresentada pelo filme Matrix, o conceito já é antigo, no livro Neuromancer, da década de 80 a Matrix já era abordada.

    AvatarAnônimo
    Número de postagens: 689

    Matrix não foi apresentada pelo filme Matrix, o conceito já é antigo, no livro Neuromancer, da década de 80 a Matrix já era abordada.

    Fica claro que você não leu o texto completo, pelo tempo que demorou para responder. Mas obrigada pela sugestão do livro.

    De qualquer forma, o texto não diz respeito essencialmente ao filme e sim é uma analise social comparativa do conceito com a hierarquia. Leia o texto completo. 

    ;)

    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    Um texto do caralho pra ler, refletir, argumentar e debater e vc vem com essa de que Matrix foi apresentada antes e blábláblá…..
    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    Só essa introdução já deu água na boca!! hehehe

    Valeu @aeonFlux, vou ler completo com calma a noite!

    ^:)^

    AvatarNixom
    Número de postagens: 56

    Cara, super interessante!

    eu mesmo já cansei de pensar ” e se nós for apenas um robo também…”

    e se a pele humana for só mais um material assim como o ferro, aluminio…

    vo ter que ler tudo!

    Valeu @aeonFlux 


    =D>

    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    @aeonFlux sempre com coisa boa! valeu! 

    [applause]

    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    Acontece que a Matrix existe, mas não é algo “trivial”, nem “do mundo concreto”

    É algo SOBRENATURAL mesmo.

    AvatarFnord
    Número de postagens: 458

    Fantástico. Simplesmente o melhor post que já tivemos aqui no fórum.

    [up]

    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    O texto é realmente muito bem embasado, uma baita reflexão que bate com basicamente tudo que acredito! Essa “reflexão” merecia um livro, porque o assunto rende…

    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515
    Avatarrodes
    Número de postagens: 427

    Ola

    Realmente a sintese do conceito Matrix foi apontada na década de 1980, porém, o conceito ainda é bem anterior, sendo citado em trabalhos psicológicos de Jung, apenas não sendo colocado o nome Matrix.
    O conceito Matrix, para nós a Matriz, poderia ser definido como a matriz comportamental típica do ser humano comum, existindo apenas poucos que escapam dessa cadeia psicológica, e mesmo assim em razão de uma educação no sentido total do individualismo.
    Embora sejamos mamíferos, temos em nosso comportamental condutas típicas das especies de insetos que se agrupam, como o caso das formigas, abelhas, termitas e alguns outros. Geramos o efeito multiplicador de condutas, semelhante, principalmente às formigas. Temos a necessidade inata de estarmos próximos a semelhantes, mesmo que desconhecidos, com os quais mantemos paralelismo mental. O ser humano em sua maioria vive em bandos, reagem de forma semelhante a alguns impulsos e possuem o chamado sentimento de rebanho.
    Os poucos que escapam à essa necessidade inconsciente, são olhados de forma pejorativa e negativa, acusados de individualismo pernicioso, quando na realidade são espíritos que conseguiram se desenvolver e escapar da trama instintiva de proteção criada durante a evolução de nossa espécie.
    Essa tendencia à viver em multidões e a necessidade de obedecer a um comando, faz com que o grosso da humanidade se torne massa de manobra, quando por infelicidade caem nas mãos de um espertalhão ou paranóico.
    O que é visto em Matrix, os filmes, é simplesmente uma alegoria desse controle feito à psique humana. 
    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    E quem comanda esse matrix que seduz a humanidade ?

    Até agora ninguém mencionou esse detalhe.

    AvatarConspiradoR
    Número de postagens: 667

    Segundo a psicologia moderna,o ser humano possúi hierarquias psiquicas, onde a mais importante é o ego,no exemplo do filme Matrix, o agente Smith é o alter-ego de Neo, os humanos que ainda estão conectado a matrix fazem parte dessas várias hierarquias que são controladas pela matrix propriamente dita, no filme, todos fazem de tudo para proteger a sua hierarquia ( ego ), a matrix  é moldavel seguindo os pensamentos e desejos, pois quem está fora dela consegue entender seu real propósito e funcionamento, conhece a si mesmo e o que está ao seu redor, pensando dessa forma, a matrix é o nosso meio ambiente, que é modificado conforme o nosso pensamento, desde que saibamos diferenciar ela e tenhamos conhecimento de nós mesmos, eu vejo dessa forma, todos temos o nosso “agente Smith” que quer a todo custo nos conectar novamente na matrix, ou seja, nosso ego quer ignorar o nosso “eu” consciente e nos deixar adormecidos na realidade fantasiosa, então quem comandaria a matrix somos nós mesmos quando nos deixamos ser levados pelo “agente Smith”.

    AvatarLoki
    Número de postagens: 18515

    Sem farsas, o pensamento de que há alguém ou algo gerindo toda a humanidade é quixotesco e infantil, afinal é tão mais fácil quando temos um bode expiatório, seja deus ou o diabo, não é?

    O Conspirador colocou muito bem, a matrix somos todos nós que nos conformamos com a sociedade, nos cercamos de crenças absurdas, preconceitos e não conseguimos enxergar nada além do que já foi feito. A maioria das pessoas apenas existe e serve para mover essa grande engrenagem. Outras poucas conseguem ver além e mudam o curso da humanidade. Acredito que todos somos capazes de mudar o mundo a nossa volta, contudo, é muito mais comodo seguir em frente e deixar que os outros façam por nós.
    Sobre o filme, Conspirador, penso que o personagem NEO representava a aberração, ele era o bug do sistema. Representa o que deveríamos ser.
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